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Fotografia fine art. Próspera e exigente Imprimir E-mail
Escrito por Tania Galluzi   
Qui, 29 de Janeiro de 2015

Dentro da impressão digital jato de tinta, um segmento que vem se mostrando promissor é o de fotografia fine art, com crescimento expressivo de 2012 para cá. Conversamos com estúdios de impressão e fornecedores do setor para entender tal movimento.

 


No início de 2014, em entrevista ao Estadão, o fotógrafo Claudio Edinger afirmou que a fotografia é a nova pintura e o fotógrafo, o novo pintor. “A fotografia foi inventada por pintores para auxiliá-​­los em seu trabalho. Ela é filha da câmera obscura ( . . .). Pois o que foi inventado para auxiliar, a partir do meio do século XIX foi se tornando protagonista. Hoje não existe um grande museu que não tenha um importante departamento de fotografia, sem falar nos mais de 100 museus de fotografia no mundo todo”, contou Edinger ao jornal.
Há tempos o mundo valoriza a fotografia como expressão artística. O recorde de foto mais cara já vendida continua com o alemão An­dreas Gursky. Em 2011, um de seus trabalhos — a imagem do Rio Reno, na Alemanha, registrada em 1999 e medindo 3,5 m × 2 m — foi leiloado por US$ 4,3 milhões. Embora ponto fora da curva, esse píncaro revela a força de um meio que só tem feito crescer nos últimos anos: o mercado da fotografia fine art. E não há como negar. A evolução tecnológica em torno da reprodução dessas obras tem um peso definitivo nesse movimento, calcada no trinômio papel, tinta e sistema de impressão.
Percorrendo essa trilha há 33 anos, contabilizando 190 exposições em 20 paí­ses, o fotógrafo Cássio Vasconcellos é expectador e partícipe do processo de transformação. Para ele, a mudança mais significativa aconteceu na percepção da fotografia como obra de arte. “Ninguém mais discute se fotografia é arte ou não. Quan­do comecei, fotografia na parede só mesmo em casa de fotógrafo e agora quem não tem quer ter. Livros de fotografia eram poucos e de má qualidade, enquanto hoje, se buscar re­fe­rên­cias de fotografia brasileira, você vai encontrar dezenas e dezenas de livros muito bem impressos”.
Sem dúvida o mercado melhorou muito, porém continua pequeno, sobretudo se comparado à Europa e Estados Unidos. A boa notícia, segundo Cássio, é que não falta espaço para crescer. Como indicador ele cita o aumento da presença da fotografia em feiras como a SP-Arte (Feira In­ter­na­cio­nal de Arte de São Paulo) e a ArtRio. A força da fotografia acabou gerando, inclusive, um filhote, a SP-Ate/Foto, cuja próxima edição será em agosto de 2015.
Atento à demanda, em 2014 Cássio criou, ao lado dos também fotógrafos Lucas Lenci e André Andrade, a galeria online Fotospot – Fotografia Contemporânea. Ela reú­ne imagens de fotógrafos consagrados, novos talentos e de arquivos históricos, oferecendo fo­to­gra­fias fine art em tiragens originais limitadas, com qualidade mu­seo­ló­gi­ca, certificada, numerada e assinada pelo artista.
É neste ponto, nevrálgico na sea­ra da arte por envolver questões como autenticidade, reprodutibilidade e principalmente permanência, que entram as benesses do desenvolvimento nas ­­áreas de insumos e processos de impressão.

TRIO DE FERRO

Bruno Mortara, coor­de­na­dor da Comissão de Estudo de Pré-​­Impressão e Impressão Eletrônica da ABTG e professor de pós-​­gra­dua­ção na Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica, explica que a durabilidade e a qualidade da fotografia fine art e de reproduções de obras de arte estão diretamente ligadas ao uso de tintas pigmentadas base água em impressoras jato de tinta de oito ou mais cores, tendo como substrato pa­péis de fibra de algodão. Simplificando as características desse conjunto, o uso de pigmentos assegura uma melhor fixação da tinta, evitando que ela borre ao entrar em contato com o papel; a amplitude de cores possibilita um maior gamut de cor; e a fibra de algodão dá ao papel resistência su­pe­rior. A ausência da lignina (polímero orgânico complexo que une as fibras celulósicas) e de aditivos ópticos de brilho evita a oxidação e consequentemente o amarelecimento do papel. Além disso, os pa­péis utilizados na fotografia fine art são livres de ácido, garantindo a manutenção da qualidade
original do substrato ao longo do tempo.
Todo esse conjunto é ro­dea­do por uma série de certificações. Os pa­péis recebem, por exemplo, o selo Wilhelm Imaging Re­search, certificação que garante que o produto foi aprovado nos testes de permanência padrão da indústria relativos à expectativa de vida das impressões jato de tinta. Os fabricantes de papel, como Canson e Hah­ne­müh­le, homologam as impressoras jato de tinta, assim como certificam os pró­prios es­tú­dios de impressão, atestando o comprometimento do ateliê em trabalhar de acordo com as normas de excelência de impressão fine art. Isso significa, afora os sistemas de impressão, cuidados especiais no manuseio e armazenagem do papel e dos trabalhos já impressos e na enquadração das peças.
Tal esmero responde ao alto nível de exigência do segmento de fine art e justifica-​­se na produção de trabalhos de elevado valor agregado. O fotógrafo Clicio Barroso, cria­dor do Ate­lier de Impressão, ADI, cre­den­cia­do como o primeiro Cer­ti­fied Printer da Canson no mundo, divide esse mercado em dois nichos: o mercado de arte e o de decoração. O primeiro, composto por ga­le­rias de arte, museus e co­le­cio­na­do­res, está interessado no processo, mas sobretudo na autoria dos trabalhos. Valoriza cada detalhe, compra peças únicas ou de baixíssimas tiragens, e está preo­cu­pa­do com a qualidade da obra em si, com a assinatura do artista e com a permanência das reproduções. O segmento de decoração, formado por arquitetos e decoradores, é um pouco menos rigoroso. Busca o cuidado do processo de impressão fine art, valorizando as peças como itens que comporão um determinado am­bien­te. Atendendo ambos, Clicio comenta que os dois estão crescendo muito. “Houve uma popularização dos equipamentos de impressão. Hoje boa parte dos fotógrafos tem uma impressora de boa qualidade, que resolve suas necessidades básicas, e sabe como produzir com qualidade. Eles nos procuram quando precisam de algo maior, como uma exposição”.

Desenvolvimento tecnológico
Os fabricantes das impressoras confirmam a expansão do mercado de fine art e fotografia no Brasil, es­pe­cial­men­te nos últimos dois anos. As principais marcas, com linhas dedicadas, são Canon, HP e Epson, esta última detentora da liderança com mais de 80% de participação. “O mercado brasileiro está passando por um amadurecimento, tanto no reconhecimento do valor da fotografia autoral quanto no conhecimento técnico do processo. A demanda vem crescendo também com o maior número de exposições e com a produção para eventos sociais”, afirma Lu­cia­ra Souza, gerente de produto da Epson. Ela atribui o sucesso da Epson à amplitude da linha e à evolução das cabeças de impressão e da tinta exclusivas Epson. Juntos, os dois quesitos conseguem, segundo o fabricante, reproduzir 93% da tabela Pantone, sem alteração do resultado vi­sual da impressão em função da iluminação
à qual está exposta a peça.
Percebendo o po­ten­cial da impressão fine art, Canon e HP estão igualmente investindo em pesquisa e desenvolvimento. No caso da Canon esse movimento foi alavancado pelo início da venda direta das câmeras profissionais no Brasil, há três anos. Contudo, 2014 foi o ano de aproximação da marca com os usuá­rios e clien­tes de sistemas de impressão, marcado pela parceria co­mer­cial com a Canson, calcada na linha de impressoras de grande formato com 12 cores. “Em um ano conseguimos triplicar as vendas”, conta Fa­bia­no Peres, supervisor de revendas da Canon. De acordo com o executivo, há muito trabalho a ser feito, que deve ser intensificado em 2015. “Nosso market share ainda é pequeno, mas agora temos um produto su­pe­rior. A Canon conseguiu resolver questões re­la­cio­na­das à estabilidade das cores, alcançando uma gama de cores mais precisa, minimizando efeitos indesejados re­la­cio­na­dos à formulação da tinta como metamerismo. Essa evolução foi testada e aprovada não só pela Canon como por entidades certificadoras internacionais”. O mote para 2015, segundo Fa­bia­no, será a apresentação de soluções completas, da captura à saí­da, aproveitando a sinergia entre as câmeras e as impressoras.
Na visão de Norbert Otten, gerente de produto de impressoras de grande formato da HP, mais do que o aumento na venda de equipamentos profissionais, a HP assistiu recentemente a uma elevação no consumo dos insumos. “O mercado está ávido. Existe bastante espaço para crescer. Temos uma média mensal de venda entre cinco a 10 máquinas, que não é um volume alto, porém representa um consumo grande de suprimentos. Comparado com o segmento técnico, de engenharia, o segmento de fine art consome de oito a 12 vezes mais tinta”.
Analisando o comportamento do mercado nos últimos três anos, o gerente sa­lien­ta também uma mudança no perfil dos produtos. Até então a demanda recaia basicamente sobre impressoras de 44 polegadas. De lá para cá houve uma migração para máquinas menores, de 24 polegadas, demandadas pelo fotógrafo que quer em­preen­der no segmento de alto nível e, do outro lado, por máquinas de maior porte, de 60 polegadas, sistemas de alta produção, alta qualidade e durabilidade da impressão. “Isso significa que o impressor pro­fis­sio­nal vem sentindo a necessidade de maiores formatos”. Além do formato maior, a impressora da HP para esse perfil de clien­te, lançada em 2014, tem como di­fe­ren­cial a durabilidade, usando tintas que duram mais de 200 anos em substratos específicos e em am­bien­tes controlados como de um museu. O equipamento conta ainda com um algoritmo de impressão que confere mais velocidade de impressão em substratos foscos e de maior gramatura.
Ratificando o momento positivo vivido pelo mercado, Frederic Darrigan, diretor geral da Canson Brasil, comenta que houve uma explosão de vendas da linha de pa­péis Infinity em 2012 e 2013 no País. Na Canson, as pesquisas na área de impressão digital fine art começaram em 1989, culminando com o lançamento da linha Canson Infinity em 2009, focada na impressão jato de tinta para belas artes e fotografia. Ela inclui canvas e pa­péis de fibra de algodão e base celulose, desde 170 g/m² a 400 g/m², diferentes texturas e acabamentos, atendendo desde o fotógrafo amador até os birôs de impressão.
Quan­do conversamos com o executivo, no final de novembro, Canson e Canon estavam justamente discutindo a continuidade da parceria acertada para o mercado na­cio­nal. “A ideia de poder oferecer um pacote completo é ótima, incluindo a participação conjunta em vá­rios eventos como fizemos em 2014. Mas a Canson Brasil não tem estrutura para vender equipamentos”, afirmou Frederic Darrigan. A meta da Canson para 2015 é con­ti­nuar a ­atuar muito próxima dos clien­tes, inclusive facilitando a participação deles em eventos e ajudando-​­os a desenvolver seus ne­gó­cios. “Que­re­mos fortalecer os impressores, mesmo porque eles são figuras-​­chave na divulgação do que é fine art”.

O que é fotografia fine art?

Muito se discute sobre a definição do que é fotografia fine art e parte da dificuldade vem do fato de não existir um consenso sobre o que é arte. O termo fine art, que significa belas artes, começou a ser as­so­cia­do à fotografia nos anos de 1930 e 1940 nos Estados Unidos, como explica o fotógrafo Clicio Barroso. Nessa época a fotografia fortaleceu-​­se como uma vertente das artes plásticas através de figuras como o fotógrafo norte-​­americano Edward Weston. O termo continuou a evoluir, classificando grandes paisagens em P/B, algo que po­de­ría­mos as­so­ciar ao trabalho rea­li­za­do pelo fotógrafo Se­bas­tião Salgado. Hoje dá nome não só ao trabalho autoral de um fotógrafo como ao processo de reprodução dessa imagem. E aqui mora o perigo. Uma imagem de um fotógrafo renomado, impressa de maneira incorreta, pode ser considerada fotografia fine art? E uma imagem qualquer, reproduzida dentro dos mais rigorosos padrões de qualidade, é fine art?
Para o fotógrafo Cássio Vasconcellos, não é o uso do papel de algodão ou de uma impressora jato de tinta com tinta pigmentada que alça uma imagem à categoria de fotografia fine art. Clicio Barroso faz coro: “lixo bem impresso con­ti­nua­rá sendo lixo”. Para ambos, o que deve ser levado em conta é o trabalho autoral, a mensagem que o fotógrafo quer passar, sua trajetória.
No site da Fotospot, a galeria online cria­da por Cássio, há uma boa definição do conceito: fotografia fine art é a obra resultado de um trabalho estruturado por seu autor e decorrente de pesquisa e apuro (tanto de execução quanto de materiais para suporte), oferecida ao público interessado por um preço justificado pelo currículo e carreira. De fato, não é possível dizer que uma foto é fine art se não houver intenção técnica, estética e discursiva definida e se não houver apuro técnico e estético. Além disso, é preciso levar em conta a trajetória pro­fis­sio­nal do fotógrafo e o contexto da fotografia em relação a contextos históricos, sociais e econômicos. E, apesar da impressão não ser nunca o único fator definidor de que uma imagem é fine art, a preo­cu­pa­ção (ou, novamente, o apuro) com a impressão e o suporte também ajudam a uma fotografia ser percebida e aceita como tal.
Isso posto podemos voltar aos elementos envolvidos no processo de impressão da fotografia fine art, que garantem a longevidade da obra: papel, tinta e sistema de impressão, todos dentro das características citadas no texto principal. Porém isso não basta. Para quem pensa em apostar num mercado em crescimento e de alto valor agregado, o primeiro passo talvez seja investir em um pro­fis­sio­nal que conheça o segmento, que entenda a importância de detalhes que podem parecer insignificantes, como o uso de fitas de conservação (isentas de ácido) na montagem de uma imagem já impressa, assim como saiba lidar com as exi­gên­cias e pe­cu­lia­ri­da­des de cada fotógrafo. Em resumo, excelência em processo e atendimento personalizado. Você já não ouviu falar disso antes?

Artigo publicado na edição nº 91