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O daltônico no gerenciamento de cor Imprimir E-mail
Escrito por Adriana dos Santos e Leandro Robson Marques   
Seg, 05 de Dezembro de 2011

Será que um daltônico poderia trabalhar no gerenciamento de cor em uma indústria gráfica? Esta questão surgiu em uma discussão entre operadores e produtores gráficos, durante o processo de impressão de um catálogo de produtos de beleza em uma gráfica.
Buscando uma resposta, começamos a nos aprofundar no tema, considerando que a percepção das cores é diferente para cada ser humano, daltônico ou não. Dentre os fatores responsáveis por essas diferenças destacamos as interferências das cores do ambiente onde a amostra é observada, os diferente níveis de fadiga visual do observador ao longo do dia de trabalho, o tipo de iluminação utilizado durante a observação e eventuais imperfeições no aparelho visual de diferentes observadores.
A grande maioria das pessoas que pertencem a este grupo são homens. De acordo com estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), um em cada treze homens é daltônico. Já entre as mulheres, a relação é de uma daltônica a cada trezentas. É importante observar que há diferentes graus de daltonismo e que, não raramente, uma pessoa é daltônica mas não tem consciência disso.
Alexandre C. Leão, em sua dissertação Gerenciamento de Cores para Imagens Digitais, descreve que o olho humano possui uma grande quantidade de células nervosas, cerca de seis milhões de cones e 120 milhões de bastonetes. Os bastonetes não distinguem cores, eles apenas são sensíveis à luz e são úteis quando existe baixa luminosidade. Os cones são sensíveis às cores. Existem três diferentes tipos de cones, cada um capaz de perceber uma das três cores primárias da síntese 
aditiva — vermelho, verde e azul.
Uma pessoa normal tem a combinação exata dos três tipos de cones sensíveis às diferentes longitudes de ondas do espectro, portanto pode perceber todas as cores. Já os daltônicos são pessoas que apresentam um mau funcionamento ou ainda a não existência de cones e por isso não 
conseguem visualizar determinadas cores.
Os daltônicos são classificados, basicamente, em quatro grupos:

  • Grupo 1: Os protanopes, que não identificam a cor vermelha
  • Grupo 2: Os deuteranopes, que não identificam a cor verde
  • Grupo 3: Os tritanopes, que não identificam a cor azul
  • Grupo 4: Os acromatopes, que só reconhecem tons de cinza

Com base no exposto, a nossa dúvida continuava ainda sem resposta. Como pessoas que apresentam características tão peculiares poderiam trabalhar com gerenciamento de cores na indústria gráfica? Luiz M. Régula explica em sua dissertação Padrões Virtuais e Tolerâncias Colorimétricas no Controle Instrumental das Cores que, apesar de muitos profissionais ainda avaliarem a cor visualmente, o aumento de exigência do mercado faz com que a utilização de instrumentos para medição de cor torne-se cada vez mais indispensável. Sobretudo porque o avaliador pode apresentar deficiências no campo visual e estas só podem ser supridas com a medição de cor através de equipamentos adequados.
Frederico N. Leite, autor do estudo Calibração de Dispositivos de Cores Utilizando uma Câmera Digital, propõe que uma cor só pode ser medida por instrumentos especializados, que possuem sensores responsáveis por medir a luz refletida ou a transmitida. Entre os principais instrumentos de medição utilizados destacam-se o espectrofotômetro, o colorímetro e o densitômetro. Esses equipamentos trabalham como contadores de fótons com filtros de valores espectrais definidos. A diferença básica entre eles é a quantidade de filtros que 
possuem e a sensibilidade de seus sensores.
O densitômetro não é, rigorosamente falando, um equipamento para medição de cores, uma vez que não indica valores absolutos que representam de forma inequívoca cada cor. Densitômetros permitem a avaliação comparativa de quantidades de tintas aplicadas na impressão. Medições densitométricas também permitem controlar outras variáveis de processo, tais como ganho de ponto, contraste relativo, a aceitação de um filme de tinta sobre outro (trapping), entre outros.
O colorímetro é um equipamento com capacidade de classificar as cores baseado em três características que podem definir uma cor: a tonalidade ou matiz (define a cor pelo comprimento de onda), o brilho ou luminosidade (destaca a proximidade do branco ou preto) e a saturação ou croma (grau de pureza da cor).
O espectrofotômetro é o aparelho mais eficaz na medição de cores e foi desenvolvido com a capacidade de cumprir essa tarefa através da medida da transmitância e refletância de uma amostra em função de um comprimento de onda. Conforme afirma Luiz Régula, uma luz policromática e difusa inicialmente ilumina a amostra. Essa luz refletida passa pelo prisma, grade ou outro dispositivo apropriado e sofre uma difração. Os componentes monocromáticos chegam a detectores espectrais, cada um no lugar correspondente ao seu comprimento de onda. Cada um dos detectores manda um sinal correspondente à energia relativa recebida naquele comprimento de onda e finalmente o fator de 
refletância, em porcentagem, fica registrado.
Considerando-se que:

  1. Mesmo pessoas “normais” percebem as cores de forma diferente
  2. Há diferentes graus de daltonismo e esse problema afeta uma grande parte da população
  3. A padronização do controle de processos exige quantificações e medições consistentes e com grau de precisão conhecido
  4. Há equipamentos à disposição que permitem a medição de cores com consistência e alto nível de precisão

Podemos concluir que um daltônico pode trabalhar em área de gerenciamento de cor na indústria gráfica desde que tenha conhecimento sobre colorimetria e sobre as normas técnicas que regem essa área e desde que a gráfica onde ele trabalha possua os equipamentos de medição adequados.


REFERÊNCIAS
BERTOLINI, Cristiano. Sistema para medição de cores utilizando espectrofotômetro. 2010. 95 f. Trabalho de conclusão de curso (bacharel) – Universidade Regional de Blumenau, SC.
LEÃO, Alexandre C. Gerenciamento de cores para imagens digitais. 2005. 135 f. Dissertação (mestrado em Artes Visuais) – Curso de mestrado em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Belo Horizonte, MG.
LEITE, Frederico N. Calibração de dispositivos de cores utilizando uma câmera digital. 2006. 58 f. Dissertação (mestrado em Engenharia Elétrica) – Curso de pós-​graduação em Engenharia Elétrica, Universidade de Brasília, DF.
MORTARA, Bruno. As imagens de teste SCID ou ISO 12640. Revista Tecnologia Gráfica, São Paulo, SP, v. 6, n. 75, p. 38-42, 2010.
RÉGULA, Luiz M. Padrões virtuais e tolerâncias colorimétricas no controle instrumental das cores. 2004. 135 f. Dissertação (mestrado em Metrologia) – Curso de pós-​graduação em Metrologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ.
ROSSI, Sergio. Densitometria. Revista Abigraf, São Paulo, SP, v. 24, n. 190, p. 104, set./out. 2000.
SANTOS, Adriana dos; MARQUES, Leandro Robson. Os daltônicos nas indústrias gráficas. 2010. 68 f. Trabalho de conclusão de curso (curso técnico) – Escola Senai Theobaldo De Nigris, São Paulo, SP.
TORNQUIST, Jorrit. Color y luz: teoria y prática. Barcelona, Espanha: Gustavo Gili, 2008.

Adriana dos Santos e Leandro Robson Marques são ex‑alunos do curso técnico de pré‑impressão da Escola Senai Theobaldo De Nigris.
Colaborou Marlene Dely Cruz, do Naipe – Núcleo de Apoio e Incentivo à Pesquisa, na Faculdade Senai de Tecnologia Gráfica.

Texto publicado na edição nº 80